terça-feira, 14 de junho de 2011

Desfile de Modas No Brasil


   Deviam ser umas onze horas, por aí, eu estava sozinho em casa naquele alegre domingo de sol, literalmente plantado diante da televisão na sala para assistir a mais um desfile de modas. Aliás, não tenho vergonha de confessar: quantas e quantas vezes meus amigos mais chegados me flagraram  imitando os modelos brasileiros ( eu disse “os modelos”, ouviram bem? ) como se estivesse em plena passarela.
   Mas voltando ao assunto, assistir a um desfile de modas, ainda que pela TV, exige, a meu ver, uma certa percepção, uma técnica, não sei, para se descobrir a legitima modelo de passarela, como quem descobre um novo talento no mundo do futebol perdido em algum campinho de várzea. Porque uma legitima modelo de passarela precisa, antes de mais nada, ter o corpo leve e gracioso, com uma postura correta que marque presença. Também é indispensável que a modelo saiba se incorporar ao estilo da roupa que usa sem sequer ofuscá-lo, e, acima de tudo, ela precisa  aprender a caminhar na passarela com arte, como se pisasse literalmente em nuvens...
    E nesses quesitos, não há dúvida,  a mulher brasileira leva uma ligeira vantagem em relação às mulheres de outros países, porque ela traz desde o berço um gingado especial, que empresta certa cadência aos seus passos, isso sem falar na sua beleza exótica que deixa qualquer gringo babando.
   Por isso mesmo dá gosto pregar os olhos na televisão para assistir a um desfile de modas – e ao vivo, presente ao evento, então, nem se fala! Enfim, que me perdoem os críticos e os manchões de plantão, mas gostar de desfile de modas também é coisa de homem!

quarta-feira, 25 de maio de 2011

A Lição Desnecessária


A professora do ginásio
versada em física
cumpre o rigoroso dever do ofício.
                                                       As mãos educadoras aprontam a lição,
ao passo que as pernas provocam.
Todos,
com brilho nos olhos,
não se enfadam
ante o quadro-negro recheado de problemas.
Ninguém repara: os alunos
sonham, à margem dos deveres,
sonhos, prazeres, pecados e pernas.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Uma Noite de Tempestade



O que era simples introdução pluvial, de repente
ganha ímpeto e volume: é a tempestade
prestes a desabar fora de hora
para o meu desespero
provável.
Eu não disse?
Já desa
            bou
                   desa
                            bou
num estrondo tremendo, entre
raios e relâmpagos,
assoprando
rompendo
riscando
bramindo,
ao prolongar-se pela janela
                                             do meu quarto escuro,
retumbando/ retumbando.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Incêndio Verde

 

Naquilo que  um dia  foi  uma floresta, onde
o verde prolongava-se nas árvores desafiando o tempo, outras
cores, de repente, precipitaram-se.
Via-se um amarelo em combustão,
via-se um azul...e agora um vermelho,
 que também lambia os galhos das árvores, macabro.

Mas via-se principalmente outra Cor: era
negra negra negra
                             que subia depressa
                                                             subia           
                                                                         sombreando o chão.
Mas ao subir,
                        na incansável dedicação da Morte,  

  ia deixando seqüelas: as cinzas.
                                  

                                              

quarta-feira, 30 de março de 2011

Quebra-Cabeça


Sem alarde, mas pontual
o sol se levanta

distribuindo no oceano
o seu rastro de ouro.

O leão ruge
pra espantar a fome

e o medo brinca
no gemido da presa.

Qualquer grilo ensaia
o seu pulo pra vida

como da torre o relógio
já bem cedo desperta.

A porta se abre
na ânsia de entrar.

Quem bate?
- Uma voz interior pergunta.

Hoje o coelho trabalha
afiando os dentes

os dentes que serão
a fadiga de amanhã!

Mas, e o homem?
- O homem é um coelho roendo a vida

rói rói rói
enquanto o tempo o destrói...

segunda-feira, 21 de março de 2011

Rotina Doméstica


6 horas da manhã.
Manhã que começa na goela do galo
e na mulher que madruga.

Colheres de açúcar na cafeteira – prepara-se a gosto...
Marido e filhos tomam café.
A rotina  sempre a mesma - im-pla-cá-vel:
casa família família casa.
O dia se esvai na extensão da sala, e ela não vê.
Somente na transversal a noite se mostra, entre
luzes tímidas e móveis adormecidos; mas ela não dorme.

Como um girassol na noite, a mulher
floresce e se entrega pontualmente ao marido.
Rotina.
 Manhã na goela do galo.
Família casa casa família.
O café sobre a mesa... Marido e filhos...
A noite sempre atrás do dia. Rotina.
E nos olhos fundos
aquele estresse certeiro, certeiro...

A mulher, superando-o, se supera.


quinta-feira, 10 de março de 2011

Porque o Mau Inquilino Somos Nós


Por que será que milhares de peixes às vezes agonizam
em rios e mares, à espera da morte?
Porque o mau inquilino somos nós!       
                                       
Por que será que não se respira mais o ar de antigamente,
puríssimo, para a felicidade dos pulmões?
Porque o mau inquilino somos nós!       

Por que será que as geleiras – velhos arranha-céus polares –
agora se dissolvem como castelo de areia?
Porque o mau inquilino somos nós!

Por que será que antes não sentíamos falta dos animais nativos
- esses que hoje já beiram o caos da extinção?
Porque o mau inquilino somos nós!       

Por que será que deixamos vastas extensões de áreas verdes
cederem lugar à ambição das queimadas?
Porque  o mau inquilino somos nós!                                                                                            
                                                                                                                            
Por que será que os rios, onde na infância nos banhávamos,
se mostram hoje terrivelmente assoreados?
Porque o mau inquilino somos nós!       

Por isso, por tudo o que é mais sagrado nesta vida,
e em nome da tua própria existência,
ó Terra, expulsai-nos do teu lar!...